Em véspera de
natal todo mundo fica feliz, as famílias se reúnem, os amigos se presenteiam, e
por aí vai, mas há sempre um espectador, alguém que nunca é visto e sempre está
lá, normalmente uma criança tímida com um amigo imaginário, ou um amigo
imaginário com uma criança tímida, não importa, está lá.
Kevin não era
humano, nem um amigo imaginário, pois ele existia eternamente, estava mais para
um fantasma, o estranho é que ele só acordava nas vésperas de natal, como se
ontem houvesse sido véspera de natal, hoje também, e amanhã novamente. Cada dia
seu, era um local diferente no globo, ontem em Toronto no Canadá, hoje em
Fukushima no Japão, e amanhã é sempre uma surpresa, as vezes em lugares que nem
se comemora o natal.
Era mais uma
véspera de natal, dessa vez ele estava em alguma cidadezinha do interior do
Brasil, estava sentado num meio-fio pensando no tempo, o seu tempo.
—Oi. —Disse uma
garota a ele.
—Oi. — Respondeu
Kevin, com leve surpresa.
A menina se sentou
ao seu lado.
—Você parece estar
triste, por quê?
Kevin pensou um
tempo e respondeu:
—Não sei ao certo,
acho que é por que não sei o motivo da minha existência, talvez seja alguma
bobagem, só sei que mal consigo pensar e já me entristeço.
—Deve ser bem ruim
estar triste na véspera de natal, eu não queria estar na sua pele.
—E você não está
ajudando muito a melhorar isso, não é? —Disse Kevin que começava a se incomodar
com a garota.
—E por que você
pensa que precisa de ajuda? Parece que só depende de você para ver o lado bom
das coisas, e com certeza existe uma razão para você estar aqui.
—Não acho
inteligente o modo como você vê as coisas, pra começar que você não é normal já
que está conversando comigo, e não consigo ver um lado bom para você em me ver.
—Eu vejo você
triste e quero mudar isso, e esse é o lado bom.
Kevin pensou.
—Você também é um
fantasma, não é?
—Sou meio
fantasma. Metade de mim está encarnada e presa à carne, mas posso ver, tocar,
sentir seres ectoplasmáticos, pois sou o lado bom do natal, sou a felicidade.
—Você não parece
ser muito feliz para ser a felicidade..
—Mas também não
estou triste para ser considerada a tristeza. — Ela olhou-o atentamente e
continuou. —Quando você descobrir sua razão de existir, irá virar metade carne
também.
—O que sou então?
—Isso você vai
descobrir sozinho.
—E quando vai ser?
—Vai depender de
você. — Então ela beijou-lhe a testa e foi embora, deixando-o com suas
perguntas engasgadas.
Kevin nem viu
quando ela foi embora, estava conversando sozinho olhando para o chão. Quando
percebeu que estava sozinho, riu da situação, levantou-se e começou a andar. Ao
passar por um hospital, resolveu entrar.
Enquanto os enfermeiros e médicos trabalhavam
forçadamente para cumprir horário havia várias pessoas deitadas nos corredores,
em macas nos quartos, alguns já com o lençol branco por cima do rosto, e suas
almas aflitas ansiando deixar seus corpos. Kevin se comoveu com a aflição deles
e os auxiliaram. Depois de ajudar à todas as almas saírem de seus respectivos
cadáveres, algo começou a acontecer com Kevin, e sua cabeça doía, seus membros
amoleceram, então ele desmaiou.
Kevin acordou com
uma enfermeira medindo sua temperatura.
—O senhor está se
sentindo bem? Acabou de levar um tombo. —Perguntou a enfermeira.
Kevin apertou os
olhos para ver quem falava com ele.
—Quem é você?
—Sou uma
enfermeira do hospital.
—Quero saber que
fantasma você é. —Disse naturalmente Kevin.
—Ah! Já entendi.
Acompanhe-me senhor, por favor, vou levá-lo até a área psiquiátrica.
Então Kevin soube
que ela era humana, pois não entendia do que ele estava falando, e nem ele do
que ela falava.
—Desculpe, não
pretendo conhecer sua psiquiátrica. Vou para casa. Onde fica a saída? —Disse
Kevin à enfermeira.
Enquanto Kevin de
dirigia a saída, ele percebeu que algo havia mudado nele, mas ainda não sabia
dizer o quê, mas diferente de antes sua cabeça doía com a pancada que levou ao
cair no corredor.
Ele sentiu agonia
em todos os lados, ele era um radar de agonia humana, e ela estava mais do que
presente ali. Ele foi até uma sala onde tinha uma senhora vivendo por meio de
aparelhos, segurou-a na mão, conversou um pouco com a alma que estava presa à
carne, e então lhe puxou do corpo, a senhora agradeceu, deu as costas ao Kevin
e entrou num turbilhão de luz, que Kevin enxergava muito bem, era o paraíso
dela.
Ao sair do
Hospital, a felicidade estava à espera dele.
—Oi. —Disse ela.
—Oi. —Disse ele.
—Então, descobriu
qual sua razão de existir?
—Sim. —Respondeu
ele secamente.
—E qual é?
—Perguntou ela com ansiedade.
—Eu sou o auxilio
dos aflitos, para não passarem o natal com dores, tantos as da carne, quanto às
da alma. — Respondeu secamente de novo.
—De certa forma, é
belo.
—É sim. —E
deixou-a para trás para ir até um motoqueiro que havia acabado de se acidentar.
Assim foi o dia de
Kevin, e quando chegou as 23:59 do dia, ele sumiu, mas logo acordou no dia 24
de dezembro do outro ano, dessa vez em Buenos Aires na Argentina.
Lúcio Umpierre