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segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Onde há fogo, há fumaça

    O Fumaça nunca soube responder por que fugiu  de casa, talvez fosse problema com a família, talvez ele tenha se envolvido com coisas que não deveria, mas uma coisa era certa, ele fugiu de casa.
    Ele já tinha lá seus dezesseis anos de vida, pelo que me disse, e sonhava em ser um ator famoso, tipo esses de Hollywood, mas é claro que a vida não foi tão boa para com ele, e no fim ainda era apenas um garoto que fugiu de casa.
    Eu nunca soube seu verdadeiro nome, e nunca perguntei. Apresentei-me como Faísca, e ele respondeu rindo:
    __Fumaça, prazer.__ Era uma voz melancólica e cheia de energia, como se tivesse fingindo que tudo estava bem, mas era evidente que não, já que ninguém conversa comigo, a não ser mortos.
    Fumaça havia morrido e não sabia, e eu não ia contar para ele, pois os mortos não reagem bem a morte, se você diz a uma pessoa morta que ela morreu, há a possibilidade de ela tirar sua vida para provar o contrário.
    Não sou médium, sou uma espécie de ser astral que convive com os mortos, não sei dizer se o que sou provém da evolução natural, ou se é uma praga divina, mas seja o que for, não dou  a mínima, gosto de ser o que sou, pois gosto de ouvir os mortos falando sobre a vida, muitas vezes chega a ser engraçado.
    Foi diferente com Fumaça, ele falou pouco, e o resto do tempo que ficamos juntos, ele ficou me observando, e depois de um tempo ele riu.
    __Rindo do quê?__ Perguntei.
    __De você, do que mais seria? Estamos sozinhos.
    __Poderia ser uma lembrança__ Eu disse tentando arrancar alguma informação dele, mas vendo que nada diria, continuei__ O que tenho de engraçado?
    __Gosto de você, isso é engraçado, pois nunca goste de ninguém, nem mesmo meus familiares, e é por isso que seria impossível eu rir de uma lembrança, eu odeio tudo o que lembro.
    __Isso é bom, eu acho...__ E houve uma pausa longa, com ele olhando para o nada, e eu observando seus movimentos.
    Estávamos sentados em algum lugar olhando um céu roseado de fim de tarde, e de repente Fumaça enfiou a faca na perna, olhei atentamente para ele, e tudo o que ele fez foi observar o sangue escorrendo.
    __Já faz um tempo que percebi que essas coisas não doem mais, e acho que sei o por que.
    __E por quê?__ Perguntei.
    __É por que estou morto.
    __Sim, você está.__ Não tinha mais porque esconder, ele percebeu sozinho.
    __Você é a morte? Tipo aquela com a foice em cima do cavalo negro?
    __Não.
    __Bom.__ Ele ficou mais um pouco, se levantou e foi embora.
    __Onde vai?__ Perguntei.
    __Vou mostrar para os humanos como é estar morto.


                                                                                                            Lúcio Umpierre

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