Ele já tinha lá seus dezesseis anos de vida, pelo que me disse, e sonhava em ser um ator famoso, tipo esses de Hollywood, mas é claro que a vida não foi tão boa para com ele, e no fim ainda era apenas um garoto que fugiu de casa.
Eu nunca soube seu verdadeiro nome, e nunca perguntei. Apresentei-me como Faísca, e ele respondeu rindo:
__Fumaça, prazer.__ Era uma voz melancólica e cheia de energia, como se tivesse fingindo que tudo estava bem, mas era evidente que não, já que ninguém conversa comigo, a não ser mortos.
Fumaça havia morrido e não sabia, e eu não ia contar para ele, pois os mortos não reagem bem a morte, se você diz a uma pessoa morta que ela morreu, há a possibilidade de ela tirar sua vida para provar o contrário.
Não sou médium, sou uma espécie de ser astral que convive com os mortos, não sei dizer se o que sou provém da evolução natural, ou se é uma praga divina, mas seja o que for, não dou a mínima, gosto de ser o que sou, pois gosto de ouvir os mortos falando sobre a vida, muitas vezes chega a ser engraçado.
Foi diferente com Fumaça, ele falou pouco, e o resto do tempo que ficamos juntos, ele ficou me observando, e depois de um tempo ele riu.
__Rindo do quê?__ Perguntei.
__De você, do que mais seria? Estamos sozinhos.
__Poderia ser uma lembrança__ Eu disse tentando arrancar alguma informação dele, mas vendo que nada diria, continuei__ O que tenho de engraçado?
__Gosto de você, isso é engraçado, pois nunca goste de ninguém, nem mesmo meus familiares, e é por isso que seria impossível eu rir de uma lembrança, eu odeio tudo o que lembro.
__Isso é bom, eu acho...__ E houve uma pausa longa, com ele olhando para o nada, e eu observando seus movimentos.
Estávamos sentados em algum lugar olhando um céu roseado de fim de tarde, e de repente Fumaça enfiou a faca na perna, olhei atentamente para ele, e tudo o que ele fez foi observar o sangue escorrendo.
__Já faz um tempo que percebi que essas coisas não doem mais, e acho que sei o por que.
__E por quê?__ Perguntei.
__É por que estou morto.
__Sim, você está.__ Não tinha mais porque esconder, ele percebeu sozinho.
__Você é a morte? Tipo aquela com a foice em cima do cavalo negro?
__Não.
__Bom.__ Ele ficou mais um pouco, se levantou e foi embora.
__Onde vai?__ Perguntei.
__Vou mostrar para os humanos como é estar morto.
Lúcio Umpierre
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