Ricardo se despedia da namorada para ir para
casa, era tarde da noite, mas ainda não havia virado o dia. Ela morava no
último andar de um prédio, e no corredor de frente aos elevadores, eles davam o
último beijo quando um raio caiu bem perto.
__Se um raio cair em cima de mim enquanto eu estiver
indo para casa, saiba que morri brilhando.__ Disse Ricardo rindo.
Sua namorada respondeu com um tapa no peito e disse:
__Não brinca com isso. As palavras tem poder.__ E
então abraçou Ricardo, que deu um sorriso torto de prazer.
Ricardo entrou no elevador apertou o botão com
número um, deu uma última piscadela para sua namorada antes de a porta fechar e
esperou o elevador começar a descer, pegou o celular para olhar as horas e viu
que estava sem bateria.
__Pra variar__ Resmungou Ricardo para si.
Ao passar na portaria, o guarda noturno estava
dormindo, ele abriu a porta sem fazer barulho e foi para casa. Sua casa não era
longe, mas também não era perto, sem falar que é perigoso sair de noite a pé.
O céu estava nublado e trovejando, a chuva era
iminente, portanto ele sabia que tinha de ser rápido, o que não adiantou, pois
não fazia cinco minutos que havia saído da residência de sua namorada e começou
a chover. Ele correu até um mercado que havia no caminho, onde ele sabia que
tinha um toldo que ia protegê-lo da chuva. Chegou ao toldo, e despencou água do
céu. O toldo estava rasgado e mal colocado na parede, chovia tanto dentro
quanto fora. Ricardo olhava para a praça que tinha em frente ao mercado, com
enfeites de natal, quase não se via eles, dava-se de saber pelas luzes quase
ocultas na chuva.
Ricardo se lembrou da lanchonete que tinha ao lado
do mercado e que tinha um toldo bem maior e provavelmente em melhor estado,
correu uns segundos na chuva, e chegou lá. Havia um casal também, e para
evitá-los, Ricardo foi para o outro lado do toldo, que não chegava uma gota de
chuva sequer. Cansou de esperar e sentou-se, estava um pouco sujo o chão, mas
não estava molhado. Cansado e com sono, Ricardo brigava consigo mesmo para não
dormir, mas não adiantou, e ele caiu no sono.
Ele acordou com um grito de repente. A chuva ainda
caía pesadamente, e ele supôs que não dormiu muito. Olhou para o lado, e viu a
mulher tentando arrombar a porta da lanchonete desesperadamente, olhou para
onde estavam antes, e viu uma espécie de sombra puxando o corpo do homem que
estava inconsciente ou morto para a água que corria escura na rua, era raso,
pois não era nenhuma enchente, mas o corpo sumiu na água, como se fosse um rio
que tinha ali. Ricardo estava assustado, a mulher havia batido a cabeça
enquanto tentava arrombara a porta, e estava desmaiada no chão.
Ricardo foi tentar acordá-la, mas sem sucesso, e ao
olhar para o lado ele viu outra sombra saindo da água. Ele colocou a mulher nos
ombros e saiu correndo na chuva, quando chegou na esquina, ele foi
obrigado a entrar na água, e como esperado, era raso. Ele correu para a praça,
e tropeçou num banco que a chuva escondeu, e com a queda, a mulher acordou. Ela
viu a sombra e gritou. Parecia um rugido de tão poderoso que foi o grito.
__Não basta todos que você tirou de mim? O que mais
você quer de mim?__ Gritava a mulher.
A sombra tremeluzia na chuva, mas podia ser vista,
era lenta, mas não se podia deixar enganar. A mulher pegou uma barra de ferro
que tinha por ali, e correu na direção da sombra, girou a barra que atravessou
a sombra como vento, e a mão da mulher adentrou a sombra também, ela soltou um
grito de agonia, a sombra parecia engolir de pouco em pouco o braço da mulher.
Ricardo foi até ela e puxou seu braço, estava sem a metade o antebraço, então
Ricardo fez um torniquete com sua regata, e perguntou para ela:
__Você sabe o que é aquilo não sabe?
__É o tipo de coisa que você não gostaria de
saber.__ Respondeu ela se levantando.
__Mas que agora sei que existe, só não sei o que é,
dá no mesmo, me diz logo que porra é aquela.
__Meu ex-namorado.__ Disse ela olhando para os lados
a procura da sombra.
Ricardo parou para juntar as palavras novamente em
sua cabeça, não conseguia dar um sentido para elas.
__Como assim?__ Disse ele perplexo.
__Meu ex, eu o matei, e ele vem me atormentando.
__Disse ela como se fosse algo normal.
Ricardo pegou uma pedra que era do tamanho de sua
mão, e bateu atrás da cabeça dela. Deixou o corpo dela estatelado lá na grama
da praça, e saiu, ao olhar para trás, viu a sombra que tomou a forma de um
homem, movimentou positivamente a cabeça, e Ricardo respondeu com o mesmo
movimento. O homem olhou para cima segurando a mulher pelo pescoço, e um raio
caiu em cima deles. Como Ricardo não estava longe, o raio se propagou pela água
e a carga elétrica passou pelo corpo de Ricardo, que caiu.
Ao acordar, Ricardo percebeu que não estava em casa,
apertou os olhos para ver de onde vinha tanta luz, e reconheceu o lugar como um
quarto de hospital, sua namorada estava com a cabeça deitada sobre seu colo e
ela dormia. Ricardo passou as mãos nos cabelos dela que acordou imediatamente.
__Oh! Meu amor, fiquei tão preocupada aquela noite.
Você não respondia minhas mensagens, e quando eu ligava dizia que estava
desligado.
__Tinha acabado a bateria. __Disse ele sorrindo por
saber que poderia aproveitar mais da vida.
__Eu te amo. Não me dê outro susto desses.__ Disse
ela com deleite na voz.
__Não pretendo! __Ele fechou os olhos brevemente e
ao abri-los, ele viu uma sombra com cabelos esvoaçantes atrás de sua namorada.
Ricardo sabia. Era aquela mulher.
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