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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

A sombra

     Ricardo se despedia da namorada para ir para casa, era tarde da noite, mas ainda não havia virado o dia. Ela morava no último andar de um prédio, e no corredor de frente aos elevadores, eles davam o último beijo quando um raio caiu bem perto.
     __Se um raio cair em cima de mim enquanto eu estiver indo para casa, saiba que morri brilhando.__ Disse Ricardo rindo.
     Sua namorada respondeu com um tapa no peito e disse:
     __Não brinca com isso. As palavras tem poder.__ E então abraçou Ricardo, que deu um sorriso torto de prazer.
      Ricardo entrou no elevador apertou o botão com número um, deu uma última piscadela para sua namorada antes de a porta fechar e esperou o elevador começar a descer, pegou o celular para olhar as horas e viu que estava sem bateria.
     __Pra variar__ Resmungou Ricardo para si.
     Ao passar na portaria, o guarda noturno estava dormindo, ele abriu a porta sem fazer barulho e foi para casa. Sua casa não era longe, mas também não era perto, sem falar que é perigoso sair de noite a pé.
     O céu estava nublado e trovejando, a chuva era iminente, portanto ele sabia que tinha de ser rápido, o que não adiantou, pois não fazia cinco minutos que havia saído da residência de sua namorada e começou a chover. Ele correu até um mercado que havia no caminho, onde ele sabia que tinha um toldo que ia protegê-lo da chuva. Chegou ao toldo, e despencou água do céu. O toldo estava rasgado e mal colocado na parede, chovia tanto dentro quanto fora. Ricardo olhava para a praça que tinha em frente ao mercado, com enfeites de natal, quase não se via eles, dava-se de saber pelas luzes quase ocultas na chuva.
     Ricardo se lembrou da lanchonete que tinha ao lado do mercado e que tinha um toldo bem maior e provavelmente em melhor estado, correu uns segundos na chuva, e chegou lá. Havia um casal também, e para evitá-los, Ricardo foi para o outro lado do toldo, que não chegava uma gota de chuva sequer. Cansou de esperar e sentou-se, estava um pouco sujo o chão, mas não estava molhado. Cansado e com sono, Ricardo brigava consigo mesmo para não dormir, mas não adiantou, e ele caiu no sono.
     Ele acordou com um grito de repente. A chuva ainda caía pesadamente, e ele supôs que não dormiu muito. Olhou para o lado, e viu a mulher tentando arrombar a porta da lanchonete desesperadamente, olhou para onde estavam antes, e viu uma espécie de sombra puxando o corpo do homem que estava inconsciente ou morto para a água que corria escura na rua, era raso, pois não era nenhuma enchente, mas o corpo sumiu na água, como se fosse um rio que tinha ali. Ricardo estava assustado, a mulher havia batido a cabeça enquanto tentava arrombara a porta, e estava desmaiada no chão.
     Ricardo foi tentar acordá-la, mas sem sucesso, e ao olhar para o lado ele viu outra sombra saindo da água. Ele colocou a mulher nos ombros e saiu correndo na chuva, quando chegou  na esquina, ele foi obrigado a entrar na água, e como esperado, era raso. Ele correu para a praça, e tropeçou num banco que a chuva escondeu, e com a queda, a mulher acordou. Ela viu a sombra e gritou. Parecia um rugido de tão poderoso que foi o grito.
     __Não basta todos que você tirou de mim? O que mais você quer de mim?__ Gritava a mulher.
     A sombra tremeluzia na chuva, mas podia ser vista, era lenta, mas não se podia deixar enganar. A mulher pegou uma barra de ferro que tinha por ali, e correu na direção da sombra, girou a barra que atravessou a sombra como vento, e a mão da mulher adentrou a sombra também, ela soltou um grito de agonia, a sombra parecia engolir de pouco em pouco o braço da mulher. Ricardo foi até ela e puxou seu braço, estava sem a metade o antebraço, então Ricardo fez um torniquete com sua regata, e perguntou para ela:
     __Você sabe o que é aquilo não sabe?
     __É o tipo de coisa que você não gostaria de saber.__ Respondeu ela se levantando.
     __Mas que agora sei que existe, só não sei o que é, dá no mesmo, me diz logo que porra é aquela.
     __Meu ex-namorado.__ Disse ela olhando para os lados a procura da sombra.
     Ricardo parou para juntar as palavras novamente em sua cabeça, não conseguia dar um sentido para elas.
     __Como assim?__ Disse ele perplexo.
     __Meu ex, eu o matei, e ele vem me atormentando. __Disse ela como se fosse algo normal.
     Ricardo pegou uma pedra que era do tamanho de sua mão, e bateu atrás da cabeça dela. Deixou o corpo dela estatelado lá na grama da praça, e saiu, ao olhar para trás, viu a sombra que tomou a forma de um homem, movimentou positivamente a cabeça, e Ricardo respondeu com o mesmo movimento. O homem olhou para cima segurando a mulher pelo pescoço, e um raio caiu em cima deles. Como Ricardo não estava longe, o raio se propagou pela água e a carga elétrica passou pelo corpo de Ricardo, que caiu.
     Ao acordar, Ricardo percebeu que não estava em casa, apertou os olhos para ver de onde vinha tanta luz, e reconheceu o lugar como um quarto de hospital, sua namorada estava com a cabeça deitada sobre seu colo e ela dormia. Ricardo passou as mãos nos cabelos dela que acordou imediatamente.
     __Oh! Meu amor, fiquei tão preocupada aquela noite. Você não respondia minhas mensagens, e quando eu ligava dizia que estava desligado.
     __Tinha acabado a bateria. __Disse ele sorrindo por saber que poderia aproveitar mais da vida.
     __Eu te amo. Não me dê outro susto desses.__ Disse ela com deleite na voz.
     __Não pretendo! __Ele fechou os olhos brevemente e ao abri-los, ele viu uma sombra com cabelos esvoaçantes atrás de sua namorada.

     Ricardo sabia. Era aquela mulher.

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