Lembro-me pouco daquele dia, mas me lembro dele. Seria difícil não lembrar, já que era o único usando aquelas vestes, parecia uma toga negra esfarrapada que parecia já ter enfrentado guerras com espadas, machados, lanças, e também de guerras com aramas de fogo e destruição em massa, e por incrível que pareça não foi só sua roupa que me chamou atenção, pois sua cabeça era só a caveira, que de tão branca, parecia ter sido polida todos os dias, e havia uma barba na caveira, daquelas grandes que vinham até o tórax, e não era nem branca nem negra, era ruiva, de um vermelho vivo equiparável ao sangue.
Eu o vi, e ele me viu.
Dei meia volta, e lá na frente eu vi ele de novo. Virei para o lado e saí correndo, não olhei para trás.
Corri.
Corri.
Então senti um toque suave na nuca, e tudo girou, as ruas, os prédios. a cidade, o estado, o país, o continente, o planeta, o sistema solar, a via láctea, o universo, e eu vi um por um, sempre girando, e logo apaguei.
Ao acordar, não abri os olhos, sentia medo, teria sido um sonho? Não sabia dizer. Tudo o que eu sentia era um sabor de bílis na boca que indicava que eu havia vomitado. Não ouvia nada a não ser meu batimento cardíaco e meus pensamentos, não havia cheiro nem dor, me sentia suspenso no nada, pois parecia que nada me segurava e nada me apoiava.
Abri os olhos e enxerguei vários pontos brilhantes e distantes, concluí que eram estrelas. Fui me virar para ver onde estava deitado e comecei a rodar no vácuo.
Foi um choque. Eu estava no espaço.
Como eu estava vivo? Não sei, pelo que lembro, respirava normalmente, acho que fiquei um pouco enjoado pela falta de gravidade, mas foi só.
O desespero começou a fazer parte de mim, até que pensei que não me ajudaria em nada, e comecei a pensar: O que eu fazia ali? Como fui parar ali? Por que fui parar ali?
Então eu ouvi:
__Seus pensamento são bem inquietos__ Disse uma voz rouca, como se não tivesse cordas vocais, eu me virei e vi o ser da toga negra, mas dessa vez com uma jaqueta vermelha e jeans, a barba estava prateada.
__Você não tem um bom senso de moda__ Foi tudo o que eu disse seguido de um sorriso torto, que pareceu divertir o caveira.
__E você não tem senso de moral, e é por isso que não enlouqueceu aqui ainda, e é por isso que escolhi você__ Disse o caveira.
__Poxa! que bom! Não faz ideia de como me sinto honrado ao ouvir isso.__ Eu disse de forma sarcástica, e ele respondeu com uns engasgos que eu acredito que eram risadas.
__Parabéns! Não vou nem testá-lo! Vou me aposentar agora mesmo. Boa sorte garoto rato! O espírito do porco lhe agradece. Daqui mil anos escolha o próximo.__ E ele jogou algo para mim que veio flutuando devagar.__ Essa é sua foice. Não ela necessariamente precisa ser uma foice, esse é só o nome dela, você pode dar a forma que quiser à ela, eu gostava da espada persa, mas de vez em quando usava outras.
Quando finalmente a foice chegou a mim e eu a peguei, o caveira branca sumiu, e eu senti tudo mudando, eu via e ouvia à milhões de anos-luz, e aquilo que eu supus serem estrelas, eram na verdade galáxias, e eu estava no centro de tudo, uma escuridão total.
Me senti mais forte, mais rápido, mágico, me senti impossível. Passei a mão no rosto e o senti duro, maciço como osso, então espantado peguei a foice e pensei em um machado grande e com grande capacidade de refletir, e nele eu me vi, uma caveira negra com um bigode cheio e bem arrumado de cor verde, daquele verde bem escuro.
Então na lâmina apareceu: "Do porco para o rato".
Eu soube naquele momento que eu era algo que não temia, mas evitava. Eu era a morte.
Lúcio Umpierre
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