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sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Um conto de natal

                Em véspera de natal todo mundo fica feliz, as famílias se reúnem, os amigos se presenteiam, e por aí vai, mas há sempre um espectador, alguém que nunca é visto e sempre está lá, normalmente uma criança tímida com um amigo imaginário, ou um amigo imaginário com uma criança tímida, não importa, está lá.
                Kevin não era humano, nem um amigo imaginário, pois ele existia eternamente, estava mais para um fantasma, o estranho é que ele só acordava nas vésperas de natal, como se ontem houvesse sido véspera de natal, hoje também, e amanhã novamente. Cada dia seu, era um local diferente no globo, ontem em Toronto no Canadá, hoje em Fukushima no Japão, e amanhã é sempre uma surpresa, as vezes em lugares que nem se comemora o natal.
                Era mais uma véspera de natal, dessa vez ele estava em alguma cidadezinha do interior do Brasil, estava sentado num meio-fio pensando no tempo, o seu tempo.
                —Oi. —Disse uma garota a ele.
                —Oi. — Respondeu Kevin, com leve surpresa.
                A menina se sentou ao seu lado.
                —Você parece estar triste, por quê?
                Kevin pensou um tempo e respondeu:
                —Não sei ao certo, acho que é por que não sei o motivo da minha existência, talvez seja alguma bobagem, só sei que mal consigo pensar e já me entristeço.
                —Deve ser bem ruim estar triste na véspera de natal, eu não queria estar na sua pele.
                —E você não está ajudando muito a melhorar isso, não é? —Disse Kevin que começava a se incomodar com a garota.
                —E por que você pensa que precisa de ajuda? Parece que só depende de você para ver o lado bom das coisas, e com certeza existe uma razão para você estar aqui.
                —Não acho inteligente o modo como você vê as coisas, pra começar que você não é normal já que está conversando comigo, e não consigo ver um lado bom para você em me ver.
                —Eu vejo você triste e quero mudar isso, e esse é o lado bom.
                Kevin pensou.
                —Você também é um fantasma, não é?
                —Sou meio fantasma. Metade de mim está encarnada e presa à carne, mas posso ver, tocar, sentir seres ectoplasmáticos, pois sou o lado bom do natal, sou a felicidade.
                —Você não parece ser muito feliz para ser a felicidade..
                —Mas também não estou triste para ser considerada a tristeza. — Ela olhou-o atentamente e continuou. —Quando você descobrir sua razão de existir, irá virar metade carne também.
                —O que sou então?
                —Isso você vai descobrir sozinho.
                —E quando vai ser?
                —Vai depender de você. — Então ela beijou-lhe a testa e foi embora, deixando-o com suas perguntas engasgadas.
                Kevin nem viu quando ela foi embora, estava conversando sozinho olhando para o chão. Quando percebeu que estava sozinho, riu da situação, levantou-se e começou a andar. Ao passar por um hospital, resolveu entrar.
Enquanto os enfermeiros e médicos trabalhavam forçadamente para cumprir horário havia várias pessoas deitadas nos corredores, em macas nos quartos, alguns já com o lençol branco por cima do rosto, e suas almas aflitas ansiando deixar seus corpos. Kevin se comoveu com a aflição deles e os auxiliaram. Depois de ajudar à todas as almas saírem de seus respectivos cadáveres, algo começou a acontecer com Kevin, e sua cabeça doía, seus membros amoleceram, então ele desmaiou.
                Kevin acordou com uma enfermeira medindo sua temperatura.
                —O senhor está se sentindo bem? Acabou de levar um tombo. —Perguntou a enfermeira.
                Kevin apertou os olhos para ver quem falava com ele.
                —Quem é você?
                —Sou uma enfermeira do hospital.
                —Quero saber que fantasma você é. —Disse naturalmente Kevin.
                —Ah! Já entendi. Acompanhe-me senhor, por favor, vou levá-lo até a área psiquiátrica.
                Então Kevin soube que ela era humana, pois não entendia do que ele estava falando, e nem ele do que ela falava.
                —Desculpe, não pretendo conhecer sua psiquiátrica. Vou para casa. Onde fica a saída? —Disse Kevin à enfermeira.
                Enquanto Kevin de dirigia a saída, ele percebeu que algo havia mudado nele, mas ainda não sabia dizer o quê, mas diferente de antes sua cabeça doía com a pancada que levou ao cair no corredor.
                Ele sentiu agonia em todos os lados, ele era um radar de agonia humana, e ela estava mais do que presente ali. Ele foi até uma sala onde tinha uma senhora vivendo por meio de aparelhos, segurou-a na mão, conversou um pouco com a alma que estava presa à carne, e então lhe puxou do corpo, a senhora agradeceu, deu as costas ao Kevin e entrou num turbilhão de luz, que Kevin enxergava muito bem, era o paraíso dela.
                Ao sair do Hospital, a felicidade estava à espera dele.
                —Oi. —Disse ela.
                —Oi. —Disse ele.
                —Então, descobriu qual sua razão de existir?
                —Sim. —Respondeu ele secamente.
                —E qual é? —Perguntou ela com ansiedade.
                —Eu sou o auxilio dos aflitos, para não passarem o natal com dores, tantos as da carne, quanto às da alma. — Respondeu secamente de novo.
                —De certa forma, é belo.
                —É sim. —E deixou-a para trás para ir até um motoqueiro que havia acabado de se acidentar.

                Assim foi o dia de Kevin, e quando chegou as 23:59 do dia, ele sumiu, mas logo acordou no dia 24 de dezembro do outro ano, dessa vez em Buenos Aires na Argentina.


                                                                                                                             Lúcio Umpierre

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